Entrevista da Provedora da nossa Instituição Raquel Vale ao jornal Novo Fangueiro

Um ano como Provedora, ou melhor 365 dias, de grandes surpresas, com certeza bem cinzentas, com muitos desafios, muitas contrariedades, muitas noites perdidas e muitas resoluções difíceis de tomar…
Várias questões a que a Eng.ª Raquel Vale aceitou responder nesta nossa primeira grande entrevista do novo e expectante ano de 2021, pela responsável máxima da instituição que tem a maior força empregadora da nossa Vila e das maiores do próprio concelho.

Novo Fangueiro: Passado um ano que tomou posse, sabendo as enormes dificuldades que iria encontrar, com as consequências desta devastadora pandemia, se o adivinhasse, ainda teria coragem de aceitar tão complicado desafio?
Raquel Vale: “Claro que sim. Quando avancei com a minha candidatura à direção da Santa Casa foi num espírito de missão, de poder contribuir, com o meu voluntarismo, empenho e dedicação, para o desenvolvimento de tão nobre instituição como é a Santa Casa da Misericórdia de Fão. Não seria correta comigo mesma se a condicionasse às condições que me esperariam, e que acabaram por se revelar um verdadeiro desafio para mim e para a minha equipa. Sob o ponto de vista pessoal, este projeto de voluntariado que abracei, representa, naturalmente, um esforço acrescido na conciliação da minha vida profissional e familiar.”


Novo Fangueiro: Antes da pandemia, como estavam a correr as coisas, sabendo que havia algumas questões não muito fáceis de lidar, como por exemplo a paragem das obras no Lar e hospital?
Raquel Vale“Antes da pandemia foi um período muito curto… apenas dois meses, janeiro e fevereiro, altura em que me encontrava a tomar pulso à instituição – recursos humanos, situação financeira, investimentos em curso, utentes e toda a logística da organização. No entanto, neste período avançamos para a conclusão do projeto de arquitetura da obra de requalificação e ampliação do nosso Lar S. João de Deus, onde se perspetivam grandes melhorias ao nível da sua organização e áreas comuns – economato, cozinha, refeitório e lavandaria. A nossa preocupação era podermos avançar com uma candidatura a financiamento, logo que surgisse a oportunidade enquadrável neste propósito, pelo que em agosto a instituição viu o seu projeto aprovado pelo Centro Distrital de Braga da Segurança Social. Este facto possibilitou-nos apresentar uma candidatura, logo em novembro, ao programa PARES 3G, aguardando-se agora o seu resultado para que se poder avançar com a intervenção. Também nestes primeiros meses de 2020, avançamos com uma candidatura ao aviso NORTE-42-2019-48 – Equipamentos Sociais, em tempo record e com a colaboração da Câmara Municipal, que nos permitiu angariar financiamento para a aquisição de novos equipamentos de cozinha. “


Novo Fangueiro: Mas, como lidou com a celeridade com que o corona vírus depressa se propagou no nosso país, que obrigou todas as instituições de saúde e solidariedade social, a tomar medidas preventivas imediatas e quais as principais dificuldades imediatas e sua envolvência e consequências?
Raquel Vale“Passamos momentos difíceis e de grande angústia neste ano, sobretudo quando o país ficou em confinamento, em meados de março, e quando se detetou o surto por Covid-19 no nosso Lar, a 24 de novembro… Os primeiros passos a dar foram, de acordo com as orientações da DGS, do Centro Distrital de Braga da Segurança Social e da União das Misericórdias Portuguesas, a elaboração dos respetivos planos de contingência para todas as respostas da instituição – Centro Social, Creche e Jardim de Infância, Lar e Hospital, bem como o envolvimento da nossa Comissão de Infeções, equipa especializada na gestão da infeção do nosso Hospital. A par, foram reforçados os stocks de equipamentos de proteção individual, definidos novos circuitos de trabalho, bem como implementados novos procedimentos a todos os níveis – atendimento, equipas de trabalho, circulação, etc. “

Novo Fangueiro: Como respondeu toda a equipa e os próprios utentes a tantas mudanças?
Raquel Vale“Os colaboradores e profissionais da instituição souberam estar à altura do desafio com todo o seu empenho e dedicação. Apesar de termos tido alturas em que foi indispensável recorrer, temporariamente, à contratação de pessoal externo, sobretudo na gestão do surto em que muitos colaboradores tiveram que ir para isolamento, todos os colaboradores da instituição se disponibilizaram para adiar algumas das suas folgas e férias. A sua sensibilidade era grande, na medida em que o bem-estar dos utentes dependia do seu trabalho. Também os próprios utentes e respetivas famílias se mostraram muito compreensíveis com as sucessivas interdições nas visitas, alteração de procedimentos, e contactos. Estou certa de que sem a colaboração de todas as partes envolvidas, seria de todo impossível assegurar a prestação dos nossos serviços, sem descurar a sua qualidade, durante toda esta pandemia, que convém frisar, ainda continua… “

Novo Fangueiro: A pandemia trouxe custos acrescidos e com certeza muita quebra de receitas, como conseguiram e conseguem lidar com isso, quais os apoios e ajudas que tem tido e como tem tentado atenuar esse desequilíbrio financeiro?
Raquel Vale“Pois, esta é uma questão muito sensível, uma vez que a situação financeira da instituição já não era fácil quando a atual Mesa Administrativa assumiu funções, razão pela qual decidiu interromper as obras atrás referidas, sem que a instituição encontrasse outras formas de financiamento que não o recurso ao crédito. Neste âmbito, a instituição reavaliou todos os seus encargos fixos mensais, eliminou algumas despesas, e renegociou alguns contratos. Ao nível da gestão dos seus recursos humanos, a instituição tem em vista uma reestruturação das equipas, no sentido de uma maior eficiência nos processos produtivos. Contudo, o início da pandemia, veio interromper os objetivos traçados, com o decréscimo acentuado das suas receitas devidos à pandemia. O confinamento do país logo em março, bem como o desconhecimento associado ao novo vírus, reduziu consubstancialmente a procura dos nossos serviços, não só ao nível dos cuidados de saúde, como também ao nível das respostas sociais. No entanto, a instituição via a aumentar exponencialmente os seus encargos com equipamentos de proteção individual, desinfetantes e produtos de higiene e limpeza. Assim, a par de um esforço interno na contenção e redução da despesa, foi necessário recorrer a uma linha de crédito especialmente criada para as instituições da economia social, para que a instituição pudesse assegurar os seus compromissos, sobretudo ao nível do pagamento de impostos e salários. A compreensão dos nossos fornecedores e prestadores nesta fase difícil da instituição, cujos pagamentos tivemos que atrasar, permitiu assegurar a tesouraria. Outras estratégias que a atual Mesa Administrativa delineou no ano transato, de modo a aumentar a sua receita, sobretudo ao nível da prestação de cuidados de saúde, dada a sua capacidade, foi a celebração de diversas parcerias – com o Hospital Santa Maria Maior de Barcelos no internamento de doentes não covid-19, em convalescença, e no aluguer do seu bloco operatório; com o Hospital de Braga na realização de cirurgias de urologia; na realização de exames de endoscopia digestiva geral a utentes referenciados pela Unidade Local de Saúde do Alto Minho (ULSAM).”


Novo Fangueiro: Num balanço geral, como considera este primeiro ano de gestão da Santa Casa da Misericórdia de Fão?
Raquel Vale“Considero este primeiro ano um ano de aprendizagem e de grandes desafios. A atual Mesa Administrativa teve que mergulhar na dinâmica desta instituição a grande velocidade, dada a contingência desde cedo vivida por causa da pandemia. No entanto, tratou-se de um ano que acabou por revelar o potencial dos seus recursos humanos, a colaboração dos seus prestadores, sobretudo na área da saúde, a sensibilidade e compreensão dos seus fornecedores, bem como o suporte e entreajuda dos seus parceiros, sobretudo locais,… Se por um instante esquecermos a frustração e ansiedade que caracterizou alguns dos momentos vividos, ariscaria a dizer que toda a instituição sairá muito mais preparada e fortalecida desta pandemia. “

Novo Fangueiro: Como foi possível, nomeadamente o Lar, aguentar tanto tempo “limpo” da pandemia? E por outro lado, com este surto já na parte final desta 2ª vaga, como reagiram todos os envolvidos a isso (Mesa Administrativa, colaboradores, corpo clínico, utentes e familiares)?
Raquel Vale: “Julgo que a implementação e cumprimento do plano de contingência do Lar, bem como a sensibilização da sua equipa de trabalho para o cumprimento das regras de prevenção da infeção foram determinantes para que o nosso Lar estivesse 8 meses a salvo. Quanto à reação de todos os envolvidos, foi transversal o seu empenho no combate ao vírus e à proteção dos nossos utentes mais vulneráveis. Estamos a falar de 93 utentes, com toda a logística que a gestão de um surto implica – contacto com as autoridades, gestão dos recursos humanos indispensáveis ao seu funcionamento, descontaminação de objetos e áreas, realização dos testes, etc. A sua gestão era feita ao minuto, com mudanças surpreendentes em resultado da infeção pelo vírus. O estado dos nossos utentes alterava repentinamente com necessidade de hospitalizações, apesar de na sua generalidade estarem assintomáticos, quer ao nível dos profissionais disponíveis para assegurar as suas atividades que também se iam revelando infetados sem qualquer sintoma. Não foram momentos fáceis, mas felizmente e com o apoio e colaboração de todos, inclusive de alguns voluntários, estamos a conseguir ultrapassar este surto.”

Novo Fangueiro: Confirmam-se as vacinas já na próxima semana? E qual o estado actual da situação?
Raquel Vale“De facto já fomos contactados relativamente ao número de profissionais e utentes da nossa instituição. No entanto, ainda não dispomos de quaisquer informações relativas à sua realização.”

 Novo Fangueiro: Pensa mesmo que o pior já passou? E que estimativa tem para que todas as valências da instituição estejam a laborar de novo a 100%?
Raquel Vale“Prefiro sempre esperar o pior e depois poder receber o melhor… Assusta-me, particularmente, a abertura dada às famílias na celebração do Natal, pelo que estou apreensiva quanto aos próximos tempos. Se há pessoas conscientes que procuraram proteger-se a si e às suas famílias, outras há que continuam sem perceber a gravidade da situação, que pode levar ao colapso das nossas unidades hospitalares. Lamento que estas pessoas não possam viver a experiência do que é viver, minuto a minuto, a luta contra um surto, na busca incessante de proteger vidas. “

Novo Fangueiro: Finalmente, qual são as expectativas para o novo ano de 2021 e quais os principais desafios a curto e médio prazo para esta Administração e seus colaboradores?
Raquel Vale: “As expectativas são muitas, o trabalho a desenvolver é imenso, mas a prioridade continua a ser assegurar todas as condições de segurança na prestação dos nossos serviços, quer na área da saúde, quer na área social, de modo a proteger quem nos visita e quem nos está a cargo, como são as nossas crianças e idosos. Em simultâneo, continuaremos a procurar equilibrar as contas da instituição, com vista a assegurar a sua sustentabilidade financeira. Vamos dar continuidade às parcerias que temos estabelecido com outras unidades hospitalares, no sentido de rentabilizar os nossos recursos, físicos e humanos, e aumentar as nossas receitas. O acordo com a ADSE, recentemente celebrado, para a prestação de cuidados de saúde aos seus beneficiários, no nosso Hospital, será também uma grande aposta da instituição para o presente ano. Esta convenção, há muito ambicionada pela instituição, e cujas negociações duraram o ano transato, contribuirá para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos do concelho de Esposende, na certeza de que não necessitarão deslocar-se a outros concelhos para usufruir dos cuidados de saúde convencionados, com toda a qualidade que lhes é exigida. Este processo estará em curso ainda no presente mês de janeiro, dependendo apenas de algumas relacionadas com a aplicação da ADSE.”

Fonte: http://www.novofangueiro.com/

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